As Crianças e os Adolescentes

AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES
 
Como a igreja primitiva ensinava suas crianças?

Havia algo parecido com escola dominical, classe para jovens ou berçário?

O que fazer com as crianças na hora da edificação mútua?

Como providenciar o crescimento espiritual das crianças e adolescentes?

Uma das questões mais práticas e relevantes sobre caminhar como igreja nos lares é como lidar com as crianças e adolescentes. Vamos refletir um pouco sobre este assunto. Nosso objetivo aqui não é fechar a questão ou dar respostas definitivas, nosso objetivo é apenas abrir o assunto de forma honesta e convidar os irmãos que se reúnem nos lares a buscarem juntos, e em Deus, uma forma de suprirem as necessidades de suas crianças e adolescentes em sua caminhada.

Pensemos na seguinte pergunta: ” O que fazer com as crianças durante os momentos de edificação?”  Essa maneira de abordar o assunto mostra que subconscientemente pensamos como a maioria das igrejas institucionais: crianças são vistas como problema, pois interferem no “serviço divino”, no qual profissionais importantes, bem pagos, trajando batinas ou ternos e gravatas fazem profundas pregações, para os sérios, silenciosos e santos irmãos, imovelmente sentados nos bancos. Essa forma de pensar revela que a verdadeira pergunta é a seguinte: “O que fazermos com as crianças para não nos atrapalhar enquanto estamos participando de coisas importantes e sérias?”.

Nem Jesus nem os apóstolos jamais se preocuparam sobre o que fazer com as crianças. Jesus jamais disse: “As crianças pequenas devem ser colocadas nos superlotados berçários”. Você é capaz de imaginar os pequenos isolados numa “classe de crianças” durante o Sermão do Monte? Lembra de algum texto que revela o coração de Jesus sobre o que fazer com as crianças durante seus encontros?

Veja este texto de Lucas:

“Trouxeram-lhe também criancinhas, para que ele as tocasse. Vendo isto, os discípulos as repreendiam. Jesus, porém, chamou-as e disse: Deixai vir a mim as criancinhas e não as impeçais, porque o Reino de Deus é daqueles que se parecem com elas. Em verdade vos declaro: quem não receber o Reino de Deus como uma criancinha, nele não entrará.”  (Lc 18:15-17)

As escrituras não dizem muito a respeito de como tratar as crianças durante as reuniões. Mas não é razoável imaginar que os crentes não levassem seus filhos às reuniões. A vida da igreja ocorria de forma simples e espontânea como em uma família, não havendo separação conceitual entre as reuniões e o viver cotidiano. Quando algum irmão chegava em casa e se iniciava uma comunhão, as crianças que já estavam ali participavam espontaneamente. Em ajuntamentos maiores, possivelmente não havia qualquer diferença, uma vez que eles eram o prolongamento de viver juntos. Por exemplo, na sua cidade vocês conhecem dois ou três casais que moram próximos e gostam de estar juntos para desfrutarem da Palavra, orarem ou  simplesmente passarem um tempo juntos. Isso se faz em família e não é razoável imaginar que, em momentos assim tão agravéis, as crianças sejam convidadas a se retirarem.

Embora as Escrituras não digam nada especificamente concernente às crianças nos encontros, existem referências rápidas ao assunto. Por exemplo, é bem explícito que as crianças estavam presentes na refeição dos cinco mil relatada em Mateus 14 “E os que comeram foram cerca de cinco mil homens, além de mulheres e crianças” (Mt 14:21) ; e na dos quatro mil em Mateus 15 “Ora, os que comeram eram quatro mil, além de mulheres e crianças” (Mt 15:38). Atos 21 relata uma viagem missionária onde os discípulos e suas famílias, incluindo as crianças, acompanharam os apóstolos até fora da cidade.“Passados aqueles dias, tendo-nos retirado, prosseguimos viagem, acompanhados por todos, cada um com sua mulher e filhos, até fora da cidade, ajoelhados na praia, oramos,” (At 21:5).  Finalmente, quando a carta de Paulo foi lida pelos efésios, ele se dirigiu diretamente às crianças: “Filhos, obedecei a vossos pais no Senhor, pois isto é justo“ (Ef 6:1). Como poderiam as crianças ouvir essa exortação, se não estivessem na reunião da igreja?

Apesar do relativo silêncio das Escrituras sobre crianças na igreja, podemos crer que no início, não havia nenhuma escolinha dominical nem igrejinha das crianças ou classe para crianças! As escolas dominicais não foram originadas para ensinamento de histórias da Bíblia ou de moralidade cristã, mas nasceram na Inglaterra do século dezenove para dar às crianças pobres empregadas nos moinhos e nas minas a oportunidade de aprenderem a ler e a escrever. Quem tinha a responsabilidade principal de ensinar as crianças, antes do aparecimento das escolas dominicais? A família. É da família a responsabilidade de instruir e de propiciar o crescimento espiritual das crianças cristãs e de gerar crescimento e maturidade espiritual nos adolescentes. Essa é a razão, pela qual, a maioria das igrejas domiciliares, (a exemplo das igrejas bíblicas do NT), não têm escola dominical. E essa questão das crianças é realmente uma barreira para os crentes que tencionam deixar uma igreja institucional por uma domiciliar. É estranho como muitos cristãos se preocupam tanto com o bem estar de suas crianças, a ponto desses pais se decidirem suportar uma convivência infrutífera com a corrupta religiosidade de algumas igrejas institucionais, apenas porque elas têm um bom programa para os jovens e uma boa escola dominical para as crianças. O problema dessa ação é que os filhos são ensinados a caminhar na instituição de forma religiosa e depois desviam na adolescência por falta de aprender a caminhar com Cristo em família.
 

Embora seja tarefa da família fazer a criança crescer no Senhor, isso não quer dizer que as igrejas domiciliares devem estar envolvidas no bem estar dos pequeninos. Ao contrário. Se as crianças virem a igreja de seus pais como desinteressante e aborrecida, eles pensarão que Jesus é da mesma forma. Então, precisamos discutir maneiras práticas da igreja domiciliar fazer as crianças entenderem que a igreja pertence tanto a elas quanto aos seus pais.

Analisando as formas práticas de integrar as crianças à vida das igrejas domiciliares, precisamos entender de início que, se os pais trazem consigo a mentalidade tradicional das igrejas institucionais para a igreja domiciliar, nada vai funcionar para as crianças. A igreja institucional tem a mentalidade da segregação juvenil: empurram os jovens para a escola dominical, para que tudo fique “Sagrado” e “Quieto”. Isso, claro, é antibíblico. Quão quietas você imagina que as crianças estavam durante o Sermão do Monte? A igreja institucional é liturgicamente rígida em sua “ordem de serviço”, e as crianças, não programadas e imprevisíveis como são, jamais se adaptam a essa rigidez. Então, a primeira coisa a fazer na igreja em casa é relaxar – nós teremos mesmo mais barulho e interrupções na igreja domiciliar. Pessoas com filhos precisam deixar de se sentir culpadas sobre o barulho das crianças e suas interrupções e pessoas sem filhos necessitam exercitar mais tolerância do que aquela que tinham na igreja institucional.

A segunda coisa prática a ser feita é desenvolver companheirismo entre os pais na tarefa de alcançar os filhos da igreja e relações amáveis entre os adultos e as crianças. É possível fazer isso na igreja domiciliar de uma forma que, na igreja institucional, é impossível. Com relacionamento íntimo, quando o pequeno João estiver para jogar no vaso sanitário um carrinho do coleguinha, um adulto que não seja seu pai pode firmemente determinar que ele mude sua intenção, sem temer que isso acarrete um distanciamento por parte de João ou de briga entre os pais.

 A terceira atitude prática a ser tomada é descobrir maneiras criativas e práticas de envolver as crianças na reunião junto com os adultos. De onde veio a idéia de que a reunião (ou a igreja) pertence exclusivamente aos adultos? Os encontros de edificação são para todos da família. Mesmo os pequeninos devem aprender neste ambiente que são amados e bem vindos pelos adultos da igreja. Adolescentes devem ser incentivados a participar da edificação. Igrejas domiciliares podem incentivar as crianças a compartilhar testemunhos, a recitar partes da Bíblia decoradas ou a anotarem os pedidos de oração.

A quarta coisa prática que pode ser feita é não ser intransigente com a “teologia da igreja domiciliar”. É verdade que não acreditamos em escolas dominicais, mas o mundo não irá se acabar se alguém tiver algo especial para as crianças ou se as levarem para outro cômodo da casa de vez em quando. Basta haver adultos ou alguns dos pais desejosos de investir seu tempo de edificação estando com as crianças. Não são boas também atividades que mantenham as crianças longe dos nossos olhos, mas nada há de errado que lhes mostremos, às vezes, um vídeo (mesmo que o vídeo seja dos backyardigans, cocoricó ou algo não espiritual).

Uma quinta sugestão prática é que os pais podem procurar momentos de amizade e companheirismo entre as crianças fora do ambiente dos encontros de edificação para que as crianças possam brincar tranqüilas e desenvolver amizade com os adultos. Assim quando elas precisarem interagir nos encontros estarão mais tranqüilas.

A sexta sugestão prática é tolerar pequenos bagunceiros o mais que você puder, mas se eles se tornarem muito barulhentos, os pais devem podem recolher seus filhos do ambiente de edificação até que se acalmem. Lembrando que algumas vezes a disciplina pode ser aplicada em um ambiente afastado dos irmãos. A disciplina não é pela bagunça ou barulho, mas se houver um motivo real dentro do discernimento dos pais desta criança e segundo o padrão de tolerância dos pais. Mas, lembre-se, os relacionamentos são mais importantes que o bem estar da reunião. Precisamos estar constantemente nos colocando na pele dos outros irmãos e irmãs – e nossas crianças são, no corpo de Cristo, nossos irmãos e irmãs também. Precisamos conservá-los em amor.

Minha sétima e última sugestão prática é jamais deixar que a reunião se torne monótona – nem para as crianças nem para os adultos. Se o culto está muito morto ou longo demais para os adultos, imagine como deve estar para as crianças! A duração de sua atenção é provavelmente de cerca de meia hora. Nós devemos sempre estar nos colocando no lugar de nossos irmãos e irmãs, não nos esquecendo de que nossos filhos são nossos irmãos e nossas irmãs, no corpo de Cristo. Vamos conservá-los em amor!

Terminamos essas reflexões sobre as crianças e as igrejas domiciliares apresentando as manifestas vantagens dessas igrejas para os pequenos. Não devemos ver nas crianças obstáculos para as pessoas freqüentarem as igrejas domiciliares. Precisamos, isso assim, enxergar as vantagens desse modelo de igreja para os jovens e evidenciar isso para as pessoas interessadas na conversão à igreja domiciliar.

Uma das grandes vantagens das igrejas domiciliares para as crianças é presenciar a relação de apoio e de amor entre seus pais e os outros irmãos. Elas verão seus pais abrirem o coração para Deus de uma maneira efetiva, pessoal, não religiosa e transparente.

Outra enorme vantagem é que as crianças não são relegadas a uma posição de segunda classe na igreja, nem são segregadas nem postas em berçários, escolas dominicais nem em igrejinhas para jovens.

Uma dos maiores benefícios é a relação íntima que se desenvolve entre os adultos e os filhos de outros irmãos. Devemos orar constantemente pelo envolvimento das crianças uma com as outras e com os adultos. Existem geralmente poucas casas em cada reunião de uma igreja nos lares. É muito fácil sabermos como vai a vida de criança e mais fácil ainda orarmos por elas diária e individualmente, pelo nome.

Conclusões:

Cada casa tem a principal responsabilidade de criar seus filhos no amor e temor do Senhor, mas os pais devem e podem contar com a cooperação de toda a igreja alcançar este alvo.

 As crianças devem participar do encontro de edificação e nos é que devemos ajustar a situação aos das crianças. É melhor agir assim do que ensiná-los a serem religiosos e perdermos nossos filhos na adolescência.

Quanto aos adolescentes, não devemos pensar em um jovem para ajudar em seu crescimento espiritual e nem mesmo em um adulto que se comporte como adolescente, mas os nossos adolescentes e jovens devem aprender a confiar  na ajuda dos seus pais e de casais maduros para crescerem no Senhor. Essa forma de agir trará mais maturidade e ajuste para os mesmos e os levará a uma vida equilibrada. Porém devemos dar todo suporte para que eles tenham condições de frutificar e desenvolver atividades interessantes para eles com a supervisão dos adultos.

O trabalho para lidar com crianças e adolescentes num ambiente de igreja nos lares requer muito mais investimento do que a maneira com que as igrejas institucionais cuidam dos filhos dos membros. Porém a forma institucional está falida a anos e gera uma multidão de jovens frustrados e apagados na fé.
 
(Continua)

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Comments (1)

  • sebastiao carlos

    |

    gracas a DEUS pela belissima mensagem, deixamos de ter experiencias com as criancas e adolescentes no nosso meio e tambem impedimos de DEUS nos falar atraves deles a crianca tem muito amor nos seus coracoes por a manifestacao do poder de DEUS vai ser de extrema importancia e bencao para nos os adolescentes com certeza tera conhecimento do amor de DEUS por todos igualmente.
    QUE O SENHOR DA SEARA POSSA NOS AJUDAR.
    irmao sebastiao- Resende-RJ

    Reply

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