Um Deus Grandioso e um Povo Medíocre

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Jesus, Alegria Dos Homens

Jesus continua sendo minha alegria,

O conforto e a seiva do meu coração

Jesus refreia a minha tristeza,

Ele é a força da minha vida

É o deleite e o sol dos meus olhos,

O tesouro e a grande felicidade da minha alma,

Por isso, eu não deixarei ir, Jesus

Do meu coração e da minha presença.

Johann Sebastian Bach

Outro dia, em comunhão com um irmão que é professor de Teatro, conversávamos sobre o o motivo de os cristãos geralmente terem um tremendo deficit artístico. Você vai a um livraria ou loja “cristã”, na ala dos presentes, e verá camisas com estampas feias, quadros igualmente feios, lembranças sofríveis…

Essas mesmas lembranças contudo tem sido usada para levar a mensagem do Evangelho…

Você já deve ter lido um (ou vários) folhetos evangelísticos. Normalmente são folhetos sem graça e, nos melhores, sua mensagem, na maioria dos casos, é a seguinte: inicia-se com um pequeno trecho acerca de um fato corriqueiro ou do tipo machete de jornal. Segue-se uma trecho mostrando que a vida humana sem Deus é vazia e sem sentido. Depois, tenta-se convencer o leitor que ele precisa desesperadamente de Deus senão vai para o inferno. No final, tem uma oraçãozinha de conversão e voilà: espera-se produzir mais um cristão para aumentar as fileiras do poderoso exército de Deus.

Folhetos como esses tem sido usados para levar a mensagem do Evangelho e muitas pessoas têm abraçado a fé… Fui outro dia a um culto e fiquei espantado. Havia uma mistura de show gospel de calouros, com estratégias de marketing agressivo. As letras das músicas também eram uma mistura de autoajuda com pensamento positivo, com uma profundidade de um pires.

Fico me perguntando: em que a religião tem transformado a grandiosa mensagem do Evangelho?!

Esperei então para que, durante o sermão, começasse o clímax. A metodologia era muito simples: umas piadinhas para deixar a plateia a vontade, depois uns elogios ao ímpeto dos membros que tinham conseguido comprar um prédio novo e estavam quase lotado a “igreja” de membros, membras e membrinhos (?). Tudo bem, isso acontece, mas o camarada vai abrir a Bíblia e as coisas vão melhorar… não, claro, o versículo estava fora do contexto e a coisa não melhorou. Pensei então que talvez fosse eu. Sou muito crítico, confesso, e geralmente o excesso de criticismo conduz ao ceticismos que fica a um passo da incredulidade… e obviamente não quero tornar-me incrédulo, não por medo do inferno, mas porque acho que ser incrédulo é muito chato, sim, não tem a menor graça. Não há nada que se compare à vida com Deus, aos altos (muito altos…) e baixos (muito baixos…), às reviravoltas, aos pequenos milagres diários, à esperança em meio ao desespero, à alegria em meio à tristeza e a essa coisa maluca chamada fé que faz com que, por pior que estejam as coisas, você extraia força e alegria onde somente há um deserto emocional em toda parte. É como um parto diário de realidade, em meio a dor (e muita dor, frise-se) da velha criação produzindo algo novo e misterioso, onde algo de nós morre e algo de novo nasce… Temas tão universais como andar pra frente e tão pouco explorados por aqueles que são um exemplo vivo dessa metamorfose misteriosa…

Acho que o milagre está justamente nisso: Deus usar os parcos recursos do homem para salvar, libertar e restaurar. Ele tem feito isso durante séculos. Eu fui salvo em um cenário desses…

A coisa se arrastou até um chamado para ir à frente. Bem, ninguém se converteu. Então foram chamados para ir à frente os que queriam um upgrade na vida cristã. Uns quatro se animaram. Foi feita uma oração poderosa e… estávamos chegando ao final, daí fomos nos dirigindo à saída. Ninguém nos cumprimentou, pois, afinal, éramos estranhos, apenas estranhos no meio de amigos de igreja. Quando estávamos chegando ao carro, um irmão foi correndo até nós e nos alcançou. Ele agradeceu de coração à nossa visita e nos convidou a voltar, o que dificilmente farei… mas um irmão me alcançou e isso fez toda a diferença. Isso é mais importante que tudo… um irmão me alcançou. Quando pensei que havíamos, como Corpo de Cristo, perdido a capacidade de surpreender, um irmão surpreendentemente me alcançou.

Lembrei que há muitos anos atrás, um outro irmão me alcançou e, com a intrepidez de um puddle, falou-me de Jesus e do seu imenso amor. Ele falava da sua vida cheia de coisas interessantes e de uns tais de “irmãos”. Ele falava de seus acampamentos e de suas aventuras… ele tinha um brilho nos olhos, um brilho que não é desta terra. Quando viajava de ônibus, dizia ele, gostava de ficar com a cabeça pra fora da janela, pra sentir o vento forte como se estivesse voando. Ele aprendera a tocar violão sozinho e depois conseguiu transpor as notas para o piano que, por fim, também aprendeu a tocar sozinho. Na escola militar, quando nos conhecemos, havia uma sala de TV, jogos e um piano de calda ao fundo. Ele então, de vez em quando, começava a tocar. A música enchia o ambiente e, de repente, estávamos todos em volta do piano. Ele era um cristão. Ele nos surpreendia. Ele participava de um grupo religioso não muito diferente do que eu visitei, mas isso, naqueles momentos próximos ao piano, na verdade, não importava muito, na verdade, não importava nada. Deus é maior que a religião do homem. Deus é maior que os cultos formatados. Deus é maior que os parcos recursos do homenzinho bem intencionado. Deus é maior que a música sem sentido. Deus é maior que tudo e, mesmo assim, resolveu se envolver conosco, tão miseráveis e medíocres e até, veja o absurdo, usar-nos… vasos tão frágeis e feios, para depositar o tesouro da fé, da Sua própria vida. Esse é o maior milagre de ser cristão.

Aquela corrida para nos alcançar após a reunião sofrida, fez toda a diferença e animou a minha fé. Aquele corridinha me fez lembrar que, em 2000 anos de história da igreja, sempre houve homens fracos que se atreveram a correr e alcançar outros homens fracos, fazendo com que a tocha da fé fosse transmitida de geração a geração.

E quanto a nós? Espero sinceramente que, nos últimos momentos desta corrida, eu tenha força dar uma corridinha, para passar a tocha adiante. Pra poder dizer para este mundo medíocre que há algo mais; que é possível colocar a cabeça pra fora do ônibus e sentir o vento forte nos dizendo que ainda estamos vivos; que os filhos de Deus podem ser criativos, muito criativos, podem produzir algo muito melhor que uma peça de louça mal acabada; que eles podem viver seus dons e surpreender a terra; que eles não precisam, não devem, nem tem motivos de copiar o que já nasceu falido, mas tem apenas um compromisso de vida com um Deus criativo e maravilhoso que entregou seu único filho, Jesus, para resgate de muitos… pra mostrar para o universo que do nada tudo pode surgir, que o impossível não existe, nessa formidável sucessão de novidades e surpresas diárias.

Você já deu sua “corridinha” hoje? Aproveite. Tem alguém esperando para ser surpreendido.

No próximo post, vamos comentar sobre dons. Por agora, um pouco de Handel. O ano? 1741: Clique aqui e aprecie: Aleluia, o Messias!

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