O PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA

Written by admin on. Posted in O Sistema Religioso, Vida Cristã

“Quando rejeitamos uma única história; quando percebemos que realmente nunca há apenas uma história sobre determinado lugar, nós reconquistamos um tipo de paraíso” ~ Chimamanda Adichie, escritora
Há duas formas de conhecermos o mundo que nos rodeia: através da experiência própria ou através de ver e ouvir histórias (ok, o Google também ajuda). Em ambos os casos, contudo, nosso conhecimento será muito, mas muito limitado mesmo, seja por limitações da nossa própria percepção ou limitações das histórias que nos são contados ou dos seus “historiadores”.

Isto por si só já deveria servir de alerta para nós. Entretanto, há algo bem mais perigoso do que a ignorância a respeito da história parcial: é a “história única”.

Quando alguém conta a “história única” a respeito de outro alguém ou de algum fato e essa história é recebida sem questionamento, o que recebe a história irá criar em sua mente uma estrutura, um cenário, uma corrente de valores, que aprisionarão no tempo a pessoa ou fato que foi retratado. Por exemplo, se alguém conta uma história de que em determinado País, não existem aparelhos eletrônicos, nem veículos, nem livros, mas apenas florestas, então, na cabeça de quem recebeu história, estará sendo criado um país com essas características. O problema é que esse país pode nunca ter existido de fato, mas para essa pessoa essa país existe e é real, apesar de ela nunca ter ido lá ou procurado pesquisar a respeito.

Por que esse assunto é importante para nós, cristãos? Por nós somos muito propensos a acreditar em histórias. Quando temos comunhão, o que fazemos? Contamos histórias. Quando lemos a Bíblia, o que fazemos? Lemos histórias. Quando ouvimos mensagens ou estudos, o que fazemos? Ouvimos histórias. E todas essas histórias vão criando em nós uma estrutural mental através do qual raciocinamos, julgamos e decidimos nossas vidas.

Então, se de fato as coisas são assim, qual a grande questão? Saber se as histórias são verdadeiras ou não. Quanto à Bíblia, não temos problemas, porque cremos que ela trata de fatos verdadeiros ou com significados verdadeiros. Alguns podem ser mais complexos que outros ou podem necessitar serem complementados com uma melhor tradução, mas nenhum cristão sincero desconfia da veracidade do sentido das Escrituras.

Minha preocupação, contudo, são as histórias que ouvimos e contamos. Elas são verdadeiras?

Recentemente, um irmão me indagou acerca de um fato que havia ocorrido comigo no ano de 2004, para saber se era verdade. Sim, confirmei com ele, mas fiquei assuntado com os detalhes desse fato que haviam sido transmitidos para ele. Era um absurdo de mentiras – não sei voluntárias ou involuntárias. Como ele não havia falado comigo até esse dia, ele havia ficado apenas com a “história única”, ou melhor, a “mentira única”.

Essa situação me levou a refletir acerca do perigo da “história única” no meio cristão. Quando um determinado cristão deixa de se reunir em determinado grupo, imediatamente começam a surgir as “histórias”. Se a própria pessoa não vem ao meio e as esclarece, então surgem diversas versões. Nos grupos mais sistematizados, contudo, o líder do grupo, em casos em que o cristão que deixou de frequentá-lo possuía alguma influência no grupo ou seus motivos poderiam causar uma desestabilização no poder clerical, então, para “proteger” a incolumidade espiritual do rebanho, o líder apresenta a sua “história única” acerca do irmão “desaparecido”, “ingrato”, “rebelde” ou “ambicioso”. Como a pessoa normalmente não tem como se defender (como um ausente pode argumentar?) e como os outros são normalmente orientados a não procurar a pessoa para tirar dúvidas, então a “história única” passa a ser a verdade absoluta, tão clara como amanhã será outro dia.

Uma irmã, há uns anos atrás, confidenciou-me que estava com saudades de determinado irmão e que, inadvertidamente, havia falado sobre esse sentimento no grupo ao qual ambos frequentavam. Para sua surpresa, um dos líderes do grupo lhe repreendeu veementemente:

– no nosso meio, nunca mais fale a respeito desse nome!

(achei muito semelhante à repreensão do Sinédrio acerca do nome de Jesus…)

Obviamente, o irmão a qual a irmã se referiu foi mais uma vítima do mal da “história única”. Não sei se a vítima foi ele ou a irmã e ou o grupo que perderem a presença desse irmão…

Entretanto, uma das maiores verdades do Novo Testamento, após, obviamente, a revelação de Cristo e de sua noiva, a igreja, é o caráter limitado da nossa percepção, que deveria nos conscientizar da necessidade que temos do próximo, como o único capaz de completar o nosso significado e o significado da Verdade.

“O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá; porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado” (1 Co 13:8-10)

Só o amor completa! E nós? Nós, ao máximo (isto é, com bastante esforço, pesquisa, oração e comunhão), conseguimos ver em parte, conseguimos produzir uma “história parcial”, que pode ser até boa e honesta, mas sempre será parcial, será a nossa história, segundo a nossa percepção e nada mais que isso.

O amor, entretanto, não julga sem ouvir o outro lado, sempre rejeita “história única”, o amor vai até a fonte, o amor visita, o amor manda e-mail, o amor liga, o amor manda torpedo, o amor ora pela pessoa, o amor lança fora o medo, o amor não atravessa para o outro lado da rua para evitar seu irmão… O amor sabe perfeitamente que só com o outro ele pode ser completo de significado.

“A falta de amor não é necessariamente o ódio, mas muito mais a indiferença”.

Ame ao próximo e rejeite a “história única”.

Graças a Deus que um dia tudo o que é em parte será aniquilado, seremos então consumidos e absorvido por Aquele que É tudo em todos, e então virá o fim!

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